
Meu pai bateu o dedinho do pé no pé da cama e eu só ouvi os gritos de dor ecoando pela casa. E quando eu perguntei o que havia acontecido, e ele olhou pra mim com lágrimas nos olhos e aquela cara de cão arrependido, eu soube exatamente o que dizer:
- FODA-SE.
Meu primo levou um tombo de bicicleta e ralou da barriga até a sola dos pés. Bateu no meu portão encharcado de sangue e pedindo algumas pedras de gelo. Não bati o portão na cara dele, é claro. Mas também é claro que eu disse:
- FODA-SE.
Meu irmão, quando tinha 9 anos, caiu da cama de cima de uma beliche e bateu a cabeça no chão de mármore. Ele chorou a noite inteira e ficou com um galo do tamanho de uma bola de golfe na cabeça.
Eu não disse, pq afinal, ele podia ter morrido. Mas é claro que eu pensei:
-FODA-SE.
Meu cachorro se empolgou com os fogos do Reveillon, pulou na piscina, quase se afogou e ficou anos tendo ataque epilético, e tomando gardenal todo dia pra evitar morder a língua.
Fiquei com muita pena, mas mesmo assim pensei:
FODA-SE.
Até que alguns dias depois de eu completar 12 anos, numa festinha de Helloween, uma mão perfurou meu corpo, revirou a procura do meu útero e então o espremeu com toda a força que podia entre seus dedos ensanguentados.
Poucos segundos depois eu virei uma mocinha. E desde então aquela mesma mão filha da puta maltrata meu útero durante alguns diazinhos de cada mês. E enquanto estou sendo mutilada por dentro, e me contorcendo de dor, lembro do meu pai, do meu irmão, do meu primo e do meu cachorro…e penso:
FODAM-SE!
Aí chega o fim do mês. Chega AQUELA hora. Sempre numa sexta-feira, tipo hoje. Saio pra minha hora de almoço e pego o carro, vou gritando alguma música bem violenta pra desestressar. Disrturbed tem me ajudado. Cradle of Filth eu já deixei pra lá. Durante os 500m que precorro até o shopping, fico rezando para meu pneu furar ou algum caminhão me pegar de frente durante alguma ultrapassagem. Mas nada nunca acontece nesses momentos. Talvez eu devesse tentar ir a algum lugar mais longe, 500m não tem tido nenhuma emoção.
Então chego no shopping onde a clínica de depilação me espera. Uma fachada clean, com uma logo cor-de-rosa e um cheiro bom de cera perfumada, acompanhados de uma atendente sempre sorridente, que me recebe com um animado “Boa tarde, querida! Como vc está hoje?”, mas que no fundo eu sei que significam “Boa tarde, filha da puta, veio se foder hj?”. E então ela acha meu cadastro, pergunta o que vou fazer hoje, e eu digo “O de sempre”, ela olha O DE SEMPRE no computador e olha pra mim com cara de compaixão.
- Bom, tudo certo, Manuela. É só sentar e aguardar um minutinho que vc já vai ser chamada.
Deu pra entender? é só SENTAR e aguardar, foi isso que ela disse. Essas atendentes sabem mesmo como piorar as coisas. Ela acha que eu não percebo a mensagem? Acha que não tô sabendo que quando eu sair por aquela porta em direção ao corredor da morte ela não vai ficar rindo baixinho da dor que eu estou prestes a sentir?
Penso melhor sobre isso enquanto subo as escadas mais longas da minha vida e decido que talvez não, talvez ela já esteja acostumada e já não ri mais das pobres infelizes prestes a serem mutiladas. Mas eu tenho certeza que no primeiro mês dela naquele emprego foi assim. E tenho certeza de que atendentes de salões de depilação não se depilam.
As depiladoras eu sei que sim, todas se delipam. Sei disso porque Tyler sabe disso sempre pergunto pra elas durante os momentos de dor. Gosto de conversar com as depiladoras, ajuda na hora de tentar esquecer do sofrimento. E todas sempre me disseram que são adeptas da prática, e que fazem em si mesmas. Mas essa parte eu não consegui imaginar. Isso é desumano, é auto flagelo, que tipo de amor próprio uma pessoa dessas tem? São pessoas com sangue frio. Existem muitas desse tipo no mundo.
Mas tento não pensar em nada disso enquanto continuo subindo as escadas.
E aí ela aparece, assustadora em seu jaleco branco e com o rosto escondido por uma daquelas máscaras de hospital. Tenho certeza de que é pra não ser reconhecida na rua, porque certamente ela seria mortalmente espancada se fosse reconhecida em qualquer lugar por uma de suas vítimas.
Por um instante eu me pergunto se vim mesmo me depilar ou se vim retirar um tumor no cérebro ou algo assim. O clima de hospital invade o lugar e eu já posso sentir o cheiro de formol invadindo meu sistema olfativo.
Ela me pede para segui-la, e então eu entro na salinha branca e rosa onde toca música calma, daquelas estilo cachoeira relaxante e canto de pássaros silvestres. Acho que é pra fazer a gente relaxar, ou pelo menos essa deve ser a intenção. Agora, se isso realmente funciona em alguém, eu já não tenho muita certeza.
Pelo menos em mim não surte nenhum efeito.
O Charles Manson A Depiladora me manda deitar, e sai da sala pra ir buscar a arma do crime, a CERA QUENTE.
E o crime começa.
Não vou falar sobre as posições constrangedoras, nem sobre a dor, nem sobre a pinça que no fim é usada para retirar os pelos sobreviventes ao massacre. Não vou falar sobre a felicidade que a palavra “Prontinho!” exerce sobre mim, nem sobre como aquele quadrinho com os desenhos especiais de coração para depilação pubiana é ridículo.
Só vou dizer uma única coisa…
FODAM-SE, homem não sente dor!
Ps.: Post escrito como forma de desabafo. Não precisa necessariamente ser levado a sério.












